O DISCURSO IDEOLÓGICO, PRECONCEITO E RACISMO NO AMBIENTE DE TRABALHO: UM EXERCÍCIO ETNOGRÁFICO.

14/06/2013 11:48

INTRODUÇÃO

 

O presente exercício etnográfico surge da necessidade de elaborarmos alguns pensamentos a partir de observações realizadas no cotidiano de um ambiente de trabalho.

Julgamos ser importante pensarmos os vários discursos presentes nestas relações cotidianas numa perspectiva de causa e efeito: eles revelam uma prática comunicativa que se materializa, na maioria das vezes, numa sequência de enfrentamentos, relações dissimuladas de forças e contradições.

O local, no qual nos propomos a realizar tal exercício, refere-se ao nosso próprio ambiente de trabalho, cuja observação tem sido feita há algum tempo e da qual procuramos, mesmo estando inseridos, manter certa neutralidade e limitarmos a apenas analisar os discursos e tecer algumas considerações.

Os registros mais significativos foram anotados e, para efeito didático e de preservação da identidade, serão nomeados com os pseudônimos Sujeito A, Sujeito B e Sujeito C..

 

1 – CARACTERIZAÇÃO DO AMBIENTE / GRUPO:

 

Trata-se de um grupo de professores que trabalham em uma escola municipal de Vitória/ES no período noturno, lecionando para a EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Os profissionais, em sua expressiva maioria, são professores portadores de diploma de curso superior e especialistas em suas respectivas áreas de atuação, contratados em regime estatutário.

Também fazem parte do grupo duas pedagogas e duas coordenadoras.

A faixa etária dos profissionais varia entre 32 e 55 anos e são moradores da Região Metropolitana de Vitória.

O período de observação aconteceu de 15 de agosto à 15 de setembro e priorizou o momento de planejamento coletivo que se dá de segunda à quinta-feira de 18:00 às 18:40 e às sextas-feiras de 18:00 às 22:00.

 

 

2 – REFLEXÕES:
 

Iniciamos nosso exercício de um ponto que acreditamos ser bastante significativo: a conceituação do que significa conviver. Princípio básico das relações interpessoais, conviver significa “viver com”. Em todo agrupamento humano existe a necessidade de conviver com outros, de estar em relação com outros indivíduos.

A convivência é, sob muitos aspectos, uma dinâmica interativa que só pode ser alcançada com excelência quando os sujeitos são capazes de dar e receber, deixando de lado o egocentrismo e dando lugar ao alterocentrismo, procurando optar por atitudes éticas e que respeitem valores, crenças, raças e as diversas facetas da subjetividade humana.

É neste ponto que queremos iniciar nossa primeira reflexão a partir de uma fala que registramos:

 

“Ah, pedagoga, fica tranquila pois você vai  comer tanta linguiça até ficar branca!” (Sujeito A)

 

Observa-se claramente um víeis racista disfarçado em tom de “brincadeira”, entretanto o que nos chama mais atenção é tal fala ter sido proferida por um elemento pertencente à comunidade acadêmica, o que se esperaria uma postura mais ética e profissional.

Infelizmente, é sabido que tanto o racismo como outras atitudes preconceituosas não escolhem lugar nem posição social, elas se manifestam em qualquer nível de intelectualidade, pois já foram incorporadas à sociedade que, em muitos casos, vale-se desta prática como forma de autoproteção, afirmação e mecanismo de defesa.

A situação descrita acima me fez recordar de um livro de Aluisio Azevedo intitulado O mulato. Nele, o protagonista da obra, Raimundo, apesar do seu intelectualismo é vitima de um racismo disfarçado que, pelo desenrolar do enredo, finge não perceber.

Foi exatamente o que aconteceu dias depois quando pude registrar em minha observação a seguinte fala, justamente proferida pela interlocutora do Sujeito A:

 

Eu, heim... Nunca vi o professor tratar ninguém com preconceito ou racismo aqui nesta escola”.

(Sujeito B)

 

Não sabemos a intencionalidade do Sujeito B, entretanto podemos arriscar uma análise sem querer, contudo, encerrar a questão: às vezes é mais fácil fingir que não se vê ou não se ouve algo do que partir para o enfrentamento e gerar conflitos de outras ordens. Em outros casos, reclamar por direito e respeito em determinados grupos de pertencimento significa expor-se ainda mais ao ridículo.

Outra reflexão que queremos propor parte do seguinte registro:

 

 

Professor, você é a favor ou contra de construirmos aqui na escola um banheiro GLS? Te pergunto isso pois se você é gay não poderia usar nem o banheiro masculino nem o banheiro feminino”.

(Sujeito C)

 

Sabemos que a homofobia se encontra em qualquer ramo da sociedade. No ambiente de trabalho ela é bastante comum e se materializa em atitudes hostis ou negativas para com determinada pessoa baseada em generalizações deformadas ou incompletas.

Várias são as justificativas para tal comportamento homofóbico que não cabe aqui enumerá-las, porém dois aspectos são dignos de menção:

A primeira se refere ao fato da percepção que certos indivíduos têm do homossexualismo como um conjunto de atitudes anormais e desviantes, cabendo aqui uma alusão ao conceito de moral, ética e certo/errado que alguns indivíduos em suas mentes etnocêntricas se prestam a fazer.

A segunda, de cunho mais psicológico, reflete o medo que algumas pessoas têm delas próprias serem homossexuais ou de que outras pessoas as vejam ou percebam como tais.

            Independentemente das justificativas reais que o Sujeito C se apropriou para dirigir sua fala ao seu interlocutor, cabe refletirmos aqui na total falta de sensibilidade e educação que ele demonstrou para com seu colega de trabalho, desvirtuando sua postura que deveria ser respeitosa e inclinando-se para a ironia.

           

 

3 – CONCLUSÃO:

 

Poderíamos relatar aqui diversas outras falas registradas nesses dias que nos propomos a observar o grupo. Muitas delas de cunho ofensivo, pejorativo e que em nada colaboram para o momento de planejamento coletivo proposto pelo grupo em questão. Entretanto, finalizaremos nosso exercício por mencionar algo que mais nos chamou a atenção dentre todas as falas registradas: a conivência e participação da maioria dos membros do grupo no que tange às práticas aqui relatadas e analizadas.

            Cada grupo se constitui e estabelece suas dinâmicas de formas diferentes. Cada grupo possui suas características que os diferem de outros. Todavia, todos os grupos são formados por indivíduos pensantes e conscientes de seus papéis. Isto posto, concluímos nosso exercício etnográfico na certeza de que novos olhares devam ser lançados às relações que costumamos estabelecer em nossos grupos de pertencimento, sobretudo para que nos tornemos não apenas pertencentes a esses grupos, mas sujeitos respeitosos e que primem pela valorização do outro, num verdadeiro fazer respeitoso, democrático e ético.

 

 

Evandro Carlos Braggio

Faculdade Católica Salesiana

1º Período / 2012